quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Soneto


















Gregório de Matos e Guerra
(Salvador, 7 de abril de 1636Recife, 26 de novembro de 1696)
Boca do inferno ou Boca de brasa

Soneto I
A uma dama dormindo junto a uma fonte.
À margem de uma fonte, que corria,
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme Sílvia, não vestia
O céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silêncio entre as flores,
Calava o mar, e rio não se ouvia,

Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a Sílvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.

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Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.





sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

PERANTE A MORTE


Poeta: João da Cruz e Sousa
(1861-1898)
Estilo: Simbolismo.
Poema: PERANTE A MORTE

Perante a Morte empalidece e treme,
Treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de lágrimas, esquece
O Mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paixão que só no horror floresce...
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes...

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

"DESTES PENHASCOS FEZ A NATUREZA..."


Poeta: Cláudio Manuel da Costa
(1729-1789)
Estilo: Arcadismo
Poema: SONETO XCVIII


Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"NA ORAÇÃO QUE DESATERRA..."



Poeta: Gregório de Matos e Guerra
(1636— 1696)
Estilo: Barroco
Poema: SONETO

Na oração que desaterra.......................aterra
Quer Deus que a quem está o cuidado....dado
Pregue que a vida é emprestado..........estado
Mistérios mil que desenterra...............enterra

Quem não cuida de si, que é terra.............erra
Que o Alto Rei, por afamado.................amado
E quem lhe assiste o desvelado.................lado
Da morte ao ar não desaferra.................aferra

Quem do mundo a mortal loucura.............cura
A vontade de Deus sagrada...................agrada
Firmar-lhe a vida em atadura....................dura

Ó, voz zelosa, que dobrada.......................brada
Já sei que da formosura............................usura
Será no fim dessa jornada..........................nada

"PÁLIDA, À LUZ DA LÂMPADA SOMBRIA..."


Poeta: Manuel Antônio Álvares de Azevedo
(1831-1852)
Estilo: Romantismo
Poema: SONETO


Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

LÍNGUA PORTUGUESA














Poeta: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac
(1865 - 1918)
Estilo: Parnasianismo
Poema: LÍNGUA PORTUGUESA

Ultima flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

VANDALISMO



Poeta: Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
(1884-1914)
Estilo: Pré-modernismo.
Poema: VANDALISMO


Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

MAL SECRETO



Poeta: Raimundo da Mota Azevedo Correia
(1859-1911)
Estilo: Parnasianismo.
Poema: MAL SECRETO.

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!